4 de ago. de 2011

Qual utilidade de uma draga própria para portos?

Em conjunto com o jornal eletrônico Correio do Litoral, faço aqui breves comentários sobre a importância da dragagem permanente dos portos do Paraná (Antonina, Paranaguá e em breve Pontal do Sul).

 Canal da Galheta, Ilha o Mel e Pontal do Sul (à esq.)



Agora que a licença ambiental a ser emitida pelo Ibama aos portos paranaenses está cada vez mais próxima (dois anos depois que iniciei as negociações), iremos para a prática: dragar, fazer obras portuárias e pensar no futuro.     

Uma draga própria           

Imagine se você tem uma casa ou um campo de futebol com grama sempre pra cortar. Então você tem duas opções: possuir uma máquina de cortar grama ou chamar um jardineiro a preço de mercado sempre que precisar do serviço. 

Não vou comentar a terceira opção (não cortar a grama) por ser inimaginável o descaso.

Então, se dragar deve ser uma rotina nos portos, a manutenção das profundidades de seus canais de acesso, cais de acostagem e bacias de evolução devem ser constantes.

Afinal, estima-se que cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de sedimentos se acumulam anualmente nos canais dos nossos portos. Então você já tem ideia de que “apenas” para retirar o que se deposita naturalmente, seriam necessárias cerca de 300 viagens de uma draga de 5.000 m³ de capacidade, ou seja, uma viagem por dia útil.     

Mas e se a gente quiser hoje dragar e aprofundar os canais desde Antonina, passando por Paranaguá e indo ao mar aberto onde se localiza o Canal da Galheta? Bom, aí teremos que dragar pelo menos 8 milhões de metros cúbicos de areia e lodo, a um valor anunciado pela Appa de R$ 90 milhões, ou R$ 11,25 por m³.           

Então se tivéssemos uma draga própria, o custo por metro cúbico não sairia por mais de R$ 4,50! Ou seja, dava pra pagar a draga (R$ 44 milhões), gastar-se-ia mais uns R$ 36 milhões co combustíveis, manutenção, tripulação e uma docagem no ano e ainda sobravam uns trocados ... se é que dá pra chamar de R$ 10 milhões de troco!       

Ah! E os 1,5 milhões de metros cúbicos que assoreiam anualmente os portos, vão parar? Não é claro, a natureza segue seu ritmo, e o homem também.        

Cada vez que uma pessoa joga uma bituca de cigarro na rodovia BR-277, um dia as águas da chuva levarão esse resíduo pros canais portuários. O mesmo acontece com os deslizamentos de morros e encostas nas tragédias recentes na nossa região. Todo esse material, acaba sendo levado para as nossas baías (Antonina, Paranaguá e Guaraqueçaba).      

Portanto, uma administração portuária deveria gastar por ano R$ 6,7 milhões com dragagem se a draga fosse própria, mas gastará R$ 16 ou 17 milhões só com dragagens de manutenção, considerando-se os preços e estimativas que a Appa divulgou estes dias atrás no seu Twitter oficial:         
“portosPR Portos do Paraná 8 milhões de metros cúbicos a serem dragados. Tempo estimado: 9 meses. Custo: R$ 90 milhões. Área a ser dragada: aprox 30 km. #EIARIMA”        

Resumindo: Uma draga própria se pagaria nesta empreitada a ser iniciada este ano pelos Portos do Paraná e anualmente até o final dos tempos (ou da draga...), economizar-se-ia uns R$ 9 milhões de trocados...    

Draga para todo o litoral do Paraná   

Alem da manutenção dos canais do porto, um equipamento de tal porte, poderia fazer diversas obras no nosso litoral, tais como:    

– Abrir e manter um canal na entrada da barra de Guaratuba e lá desenvolver um projeto de polo pesqueiro e apoio marítimo à exploração de petróleo do pré-sal.

– Restaurar e manter o bom e velho Canal Sueste, que é o canal compreendido entre a Ilha do Mel e a Ilha das Peças. Este canal é o que se usou por mais 400 anos, desde a entrada das primeiras caravelas portuguesas que adentraram a Baía de Paranaguá para colonizar. Este canal foi abandonado depois da construção e entrada em operação do atual Canal da Galheta em 1975, que é de risco e sujeito aos maus humores do tempo.

O Canal Sueste em uma configuração mais simples, menos profundo e mais estreito que a Galheta, se constituiria em tráfego para navios vazios, de pequeno porte ou até emergencial em qualquer situação de gravidade na Galheta, do que não estamos livres.          

– Dragagem do canal da Cotinga e bacia de evolução do futuro terminal de navios de passageiros: Vou dar um chute, mas um canal de 1.500 metros de comprimento, com 50 de largura, com uns 10 metros de profundidade e uma bacia de evolução de pelo menos 400 metros, necessitará uma dragagem de pelo menos 1.300.000m³. Se isso for orçado pelo preço atual da Appa, coloque-se mais R$ 14 milhões no valor da obra. Se fosse com a draga própria, sairia por no máximo R$ 6 milhões.   

– Engordamento das nossas praias de Matinhos que estão sendo destruídas pelo mar e pelo descaso: Bem, desnecessário falar que o assunto seria resolvido com mais rapidez e com 1/3 do custo.       

– E a Ilha do Mel que está se partindo ao meio daria pra salvar? Sim! Foi um assunto que inclusive cheguei a conversar com o presidente do IAP à época. Poderíamos retirar areia dos nossos canais atuais e bombear para a região em que o mar está “comendo” e dividindo a ilha. Claro que isso após estudos por técnicos, modelagens matemáticas e científicas e o licenciamento ambiental. A Appa sairia no lucro, pois se evitaria  transportar estes sedimentos que são jogamos fora em alto mar, a um custo elevado embutido no preço das empresas.     

Bem, vamos parar por aqui. Já vimos que foi uma tragédia para os portos paranaenses a impossibilidade (e o desinteresse posterior) de adquirir-se uma draga, como vários países do mundo o fazem.          

Mas isto fica pra próxima!

28 de jul. de 2011

Navios de Turismo: Não tenhamos ilusões! (Final)

Na postagem anterior, falei do desinteresse dos portos de cargas em compartilhar seus espaços com eventuais navios de passageiros. Isto demonstra um imenso vazio entre o discurso demagógico fácil e a prática diária na gestão portuária.

O artigo a seguir foi publicado por mim na minha coluna Transparência Portuária no jornal Correio do Litoral, de Guaratuba, desta semana. 

Então vamos ao artigo:


 “Lá vem o pessimista!” podem dizer alguns leitores. “Garanto que quando ele estava na direção do porto pensava de outro jeito!...” podem dizer outros.

Vou contar-lhes uma conversa que tive com o presidente da Associação Comercial de Paranaguá, Yahia Hamud, no verão de 2009/10, sobre turismo em Paranaguá e terminal para navios de passageiros.

A entidade comercial, é claro, defende até hoje a construção de um terminal de navios de passageiros em Paranaguá, com o argumento de que isso traria um belo equipamento de infraestrutura turística para a cidade, onde haveria lojas, restaurantes, seria integrado com uma marina pública e até um novo quartel da Capitania dos Portos, o que cheguei a conversar e trocar ideias com o então capitão Rios.

Para meus companheiros de gestão comunitária à época: eu superintendente do porto, Hamud presidente da Aciap e o comandante da Capitania dos Portos (que buscavam meu convencimento), eu dizia:

“Quando a gente quer receber alguém na nossa casa, e por mais simples que ela seja, temos que mantê-la sempre bem arrumada. O poder público municipal e o cidadão têm que primeiro fazer a lição de casa, que é deixar a cidade um 'brinco': limpa, arrumadinha, sem mendigos, 'noias' e pedintes nas ruas importunando as pessoas, canteiros e floreiras bem arrumadas, ruas bem conservadas e sinalizadas, variedade de restaurantes e por aí afora...”

Na minha visão, se terminais de navios de passageiros fossem economicamente viáveis, teríamos filas de empresários privados fazendo propostas para construírem um com seus recursos próprios, mas nunca na minha vida soube que alguém quer construir um.

Mas, se você oferecer uma concessão para construção de terminal de qualquer tipo de carga, ah!... chovem propostas e investidores.

Ora, então por que razão a pressão e os lobbies para construir o tal terminal de turismo? É porque querem fazer com dinheiro público, como se esse não tivesse dono e a sociedade não tivesse outras prioridades sociais para jogar R$ 40 ou 50 milhões pelo ralo (sem contar uma dragagem que seria milionária).

O mercado desse tipo de navio é instável: No próximo verão 2011/12, é esperada uma redução de 13 transatlânticos que deixarão de operar no Brasil, isso de uma média anual de 200 navios nos últimos cinco anos. Só de cargueiros você sabe quantos navios atracam em Paranaguá/Antonina em média por ano? 2.400!

Se Rio, Santos, Salvador, Vitória, Fortaleza e Itajaí e outros portos com imenso apelo turístico nas suas regiões têm dificuldades de captar essas escalas, o que seria de Paranaguá? Afinal, nenhum turista europeu sai de lá de navio pra conhecer nosso litoral. Quem falar ao contrário está mentindo.

Porto de Santos, que tem um terminal de passageiros adaptado de uma parte antiga do porto a associação comercial e a imprensa de lá sempre reclamam com a Codesp (a Appa deles) que “os turistas não ficam e não gastam na cidade!”. Elementar meu caro Watson, ninguém sai da Europa pra conhecer Santos... e ainda de navio!

O turista que embarca ou desembarca em Santos está lá de passagem e forçado. Tanto faz ser Santos, Paranaguá ou Rio Grande: o barato no navio e escalas com forte apelo turístico. Santos só tem uma vantagem para os operadores: São Paulo ao lado!

Em Santos o turista em uma hora chega a São Paulo e conhece a maior metrópole da América do Sul e uma das mais badaladas do mundo e curtindo uma infinidade de restaurantes internacionais, shoppings e o pulsar da economia brasileira... ou pega um avião pra qualquer parte do Brasil ou do mundo!

Aqui ao lado em Santa Catarina, é comum se ver no verão, transatlânticos fundearem ao largo de praias como Canasvieiras e Jurerê em Florianópolis ou Porto Belo, e os turistas irem à terra de lanchas do próprio navio. Curtem o dia e o astral das belas praias, gente bonita, água cristalina e areias macias e ao fim do dia retornam ao navio, suados e felizes, afinal, não há melhor hotel do que o que estão viajando.

Em uma escala em Itajaí, podem ir de ônibus passar o dia de verão nas areias do Balneário Camboriú a 20 minutos, só pra tirarem fotos e andarem no teleférico da Interpraias no meio da “floresta tropical”. É isso que turista quer.


Quem determina a escala do navio são os grandes operadores de turismo, como a MSC e a CVC e se não combinarem com eles antes, o fracasso será total. São monopólios que ficam na arquibancada vendo agentes públicos queimando dinheiro para atraírem uma simples escala de um belo transatlântico nem que seja para saírem na foto.

Mas afinal, quem se importa com o gasto supérfluo do dinheiro público? Eu me importei e vocês sabem o que aconteceu comigo.

Vamos primeiro fazer o melhor turismo com o que temos para brasileiros da região pra depois dar o próximo passo. Se a cidade não recolhe seu lixo ou não consegue tirar o mau cheiro, tratar seus esgotos, ou acabar com os buracos das ruas, como pensar em turismo internacional?

Até a próxima!