12 de nov de 2013

Navegação Fluvial: Como os EUA exportam grãos pelo Rio Mississipi

O Blogo PONTO A PORTO reproduz aqui o interessante artigo do colunista do site PORTOGENTE Silvio dos Santos, cujo exemplo de custo baixo e de logística de grãos de exportação na navegação fluvial pode servir de exemplo ao Brasil.

O Rio Mississippi é a principal via de escoamento da produção agrícola dos Estados Unidos. O estado homônimo é famoso pela predominância de fazendas e de pequenas cidades, dependente econômicamente do agronegócio


Estima-se que em todo o mundo cerca de 460 mil quilômetros de rios e lagos tenham potencial para a navegação interior, fluvial e lacustre, mas a extensão dessas vias navegáveis é estimada em 200 mil quilômetros, as quais são utilizadas para o transporte de cargas de baixo valor agregado e sem necessidade de entrega imediata, mas com fluxo constante de mercadoria. Entre as principais cargas estão carvão, petróleo, combustíveis, fertilizantes, minerais, grãos agrícolas e, ultimamente, até contêineres para os grandes portos, devido aos congestionamentos das vias terrestres - rodovias e ferrovias. Essas cargas estão avaliadas em dois bilhões de toneladas por ano.

Além da Alemanha, Bélgica, Holanda e Rússia, onde a prática da navegação fluvial é corriqueira, os Estados Unidos utilizam adequadamente esse meio de transporte integrado com as ferrovias e rodovias. As hidrovias norte-americanas totalizam 40.740 quilômetros, o que corresponde a praticamente 9% do total mundial. Os principais rios navegáveis da América do Norte são Mississippi, Missouri, Ohio, Tennesse, Illinois, Alabama, Colúmbia, Snake e Arkansas, incluindo ainda a utilização dos Grandes Lagos como via de navegação lacustre e o Rio São Lourenço em direção ao Canadá.

Foto: http://www.mckaytomlinson.com/


Navio de carga entre barcaças no Rio Mississippi

O Rio Mississippi foi descoberto por René-Robert Cavelier, senhor de La Salle, explorador francês na América do Norte que liderou a expedição nos rios Illianois e Mississippi, após navegar pela primeira vez nos Grandes Lagos em 1679, subindo o Rio São Lourenço desde Quebec. Após sua descoberta, reivindicou a região banhada pelo Mississippi e seus afluentes para a França, e em homenagem ao rei Louis XIV, denominou-a de “Louisiana”. Anos mais tarde, em 1687, durante uma expedição para encontrar a foz do Mississippi, foi morto pelos seus próprios homens.


Em 1848, com a abertura do canal de Illinois e Michigan, em Chicago, foi possível o acesso direto ao rio Mississippi a partir dos Grandes Lagos. Assim, foi criada uma rota interior ligando Nova Iorque até Nova Orleans. No século XIX e no início do século XX, ferro e outros minérios, como o cobre, foram enviados para o sul e suprimentos, alimentos e carvão foram transportados para o norte. O transporte de passageiros no século XIX também foi muito importante, em época na qual muitas cidades se estabeleceram às margens dos lagos e dos rios navegáveis. Depois da construção das ferrovias o volume de carga e passageiros diminuiu nas vias fluviais, mas com a evolução da agricultura e posteriormente da indústria e a integração ferro-hidroviária essa carga retornou.

O Rio Mississippi e o Rio Missouri são os rios mais longos dos Estados Unidos e juntos formam a maior bacia hidrográfica da América do Norte, onde também estão os importantes Illinois, Ohio e Arkansas, entre outros. A origem do nome Mississippi é da língua ojibwe, na qual “misi-ziibi” significa “grande rio”.



O canal navegável é composto por uma série de 27 comportas e represas no alto Mississippi, a maioria das quais construídas em na década de 30, foram projetadas para manter um canal de 2,7 m de profundidade para manter o tráfego de barcos comerciais. As represas formadas são também usadas para navegação, recreação, esporte e pesca.
As represas tornam o rio mais profundo e largo, e durante os períodos de grandes volumes de água, as comportas, controlam o fluxo. Entretanto, nos períodos de grandes cheias algumas delas ficam submersas e, completamente abertas, a correnteza d’água destrói plantações, indústrias, estradas, ferrovias e cidades. Abaixo de St. Louis, o Mississippi tem a navegação livre sem eclusas.

Foto: Silvio dos Santos
  

Pontes rodoviária e ferroviária sobre o Rio Mississippi em St. Louis - 2012

A tarefa de manutenção do canal de navegação no Mississippi de seus afluentes é de responsabilidade do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA - Usace, cujas obras tiveram início em 1829 com a remoção de bancos de areia, fechamento de canais secundários e derrocamento de rochas. Na época os dois maiores obstáculos do alto Mississippi eram as correntezas de Des Moines e de Rock Island Rapids.
As corredeiras de Des Moines eram extensas e consideradas virtualmente intransponíveis. Devido a dificuldades das obras, as finalizações dos canais laterais somente ocorreram décadas depois, 1877 para Des Moines e 1907 para Rock Island Rapids.
Para impulsionar a navegação foram construídas diversas barragens na região dos lagos e nascentes, as quais armazenavam as águas das chuvas caídas na primavera, que eram liberadas quando o nível caía para ajudar a manter a profundidade mínima de navegação no canal.
O Canal Sanitário e de Navegação de Chicago ligou o Rio Illinois com o Lago Michigan foi completado em 1900. Ele proveu uma ligação entre o Rio Mississippi e os Grandes Lagos e substituiu o pequeno Canal de Illinois e Michigan de 1848.

O volume de carga de navegação fluvial e lacustre na América do Norte está sujeito à influência dos níveis da água, tanto do período de cheias como de secas, como tem mostrado a experiência dos últimos anos. O Rio Mississippi, a hidrovia mais utilizada da nação norte-americana, movimenta grandes volumes de produtos agrícolas e de petróleo e seus derivados, entre os mercados domésticos e os portos marítimos. Em 2011, segundo o Usace (United States Army Corps of Engineers), aproximadamente 500 milhões de toneladas trafegaram ao longo do Rio Mississippi.

                                           Terminal Graneleiro da Cargill – Terre Haute – Rio Mississipi – 1993




Silos e instalações portuárias da Cargill em Saint Louis – Rio Mississipi – 2012

Segundo estatísticas do BTS (Bureau of Transportation Statistics), referentes ao ano de 2009, em todo o território dos Estados Unidos da América o transporte hidroviário movimentou 12,2% das cargas, cabendo à navegação fluvial e lacustre 7,2%, conforme mostra a listagem abaixo.

32,3% - rodoviário
39,1% - ferroviário
12,2% - hidroviário
5,0% cabotagem
0,9% lacustre
6,3% fluvial
16,1% - oleodutos
0,3%  - aéreo




Autor: Silvio dos Santos, original no site PORTOGENTE