28 de jul de 2011

Navios de Turismo: Não tenhamos ilusões! (Final)

Na postagem anterior, falei do desinteresse dos portos de cargas em compartilhar seus espaços com eventuais navios de passageiros. Isto demonstra um imenso vazio entre o discurso demagógico fácil e a prática diária na gestão portuária.

O artigo a seguir foi publicado por mim na minha coluna Transparência Portuária no jornal Correio do Litoral, de Guaratuba, desta semana. 

Então vamos ao artigo:


 “Lá vem o pessimista!” podem dizer alguns leitores. “Garanto que quando ele estava na direção do porto pensava de outro jeito!...” podem dizer outros.

Vou contar-lhes uma conversa que tive com o presidente da Associação Comercial de Paranaguá, Yahia Hamud, no verão de 2009/10, sobre turismo em Paranaguá e terminal para navios de passageiros.

A entidade comercial, é claro, defende até hoje a construção de um terminal de navios de passageiros em Paranaguá, com o argumento de que isso traria um belo equipamento de infraestrutura turística para a cidade, onde haveria lojas, restaurantes, seria integrado com uma marina pública e até um novo quartel da Capitania dos Portos, o que cheguei a conversar e trocar ideias com o então capitão Rios.

Para meus companheiros de gestão comunitária à época: eu superintendente do porto, Hamud presidente da Aciap e o comandante da Capitania dos Portos (que buscavam meu convencimento), eu dizia:

“Quando a gente quer receber alguém na nossa casa, e por mais simples que ela seja, temos que mantê-la sempre bem arrumada. O poder público municipal e o cidadão têm que primeiro fazer a lição de casa, que é deixar a cidade um 'brinco': limpa, arrumadinha, sem mendigos, 'noias' e pedintes nas ruas importunando as pessoas, canteiros e floreiras bem arrumadas, ruas bem conservadas e sinalizadas, variedade de restaurantes e por aí afora...”

Na minha visão, se terminais de navios de passageiros fossem economicamente viáveis, teríamos filas de empresários privados fazendo propostas para construírem um com seus recursos próprios, mas nunca na minha vida soube que alguém quer construir um.

Mas, se você oferecer uma concessão para construção de terminal de qualquer tipo de carga, ah!... chovem propostas e investidores.

Ora, então por que razão a pressão e os lobbies para construir o tal terminal de turismo? É porque querem fazer com dinheiro público, como se esse não tivesse dono e a sociedade não tivesse outras prioridades sociais para jogar R$ 40 ou 50 milhões pelo ralo (sem contar uma dragagem que seria milionária).

O mercado desse tipo de navio é instável: No próximo verão 2011/12, é esperada uma redução de 13 transatlânticos que deixarão de operar no Brasil, isso de uma média anual de 200 navios nos últimos cinco anos. Só de cargueiros você sabe quantos navios atracam em Paranaguá/Antonina em média por ano? 2.400!

Se Rio, Santos, Salvador, Vitória, Fortaleza e Itajaí e outros portos com imenso apelo turístico nas suas regiões têm dificuldades de captar essas escalas, o que seria de Paranaguá? Afinal, nenhum turista europeu sai de lá de navio pra conhecer nosso litoral. Quem falar ao contrário está mentindo.

Porto de Santos, que tem um terminal de passageiros adaptado de uma parte antiga do porto a associação comercial e a imprensa de lá sempre reclamam com a Codesp (a Appa deles) que “os turistas não ficam e não gastam na cidade!”. Elementar meu caro Watson, ninguém sai da Europa pra conhecer Santos... e ainda de navio!

O turista que embarca ou desembarca em Santos está lá de passagem e forçado. Tanto faz ser Santos, Paranaguá ou Rio Grande: o barato no navio e escalas com forte apelo turístico. Santos só tem uma vantagem para os operadores: São Paulo ao lado!

Em Santos o turista em uma hora chega a São Paulo e conhece a maior metrópole da América do Sul e uma das mais badaladas do mundo e curtindo uma infinidade de restaurantes internacionais, shoppings e o pulsar da economia brasileira... ou pega um avião pra qualquer parte do Brasil ou do mundo!

Aqui ao lado em Santa Catarina, é comum se ver no verão, transatlânticos fundearem ao largo de praias como Canasvieiras e Jurerê em Florianópolis ou Porto Belo, e os turistas irem à terra de lanchas do próprio navio. Curtem o dia e o astral das belas praias, gente bonita, água cristalina e areias macias e ao fim do dia retornam ao navio, suados e felizes, afinal, não há melhor hotel do que o que estão viajando.

Em uma escala em Itajaí, podem ir de ônibus passar o dia de verão nas areias do Balneário Camboriú a 20 minutos, só pra tirarem fotos e andarem no teleférico da Interpraias no meio da “floresta tropical”. É isso que turista quer.


Quem determina a escala do navio são os grandes operadores de turismo, como a MSC e a CVC e se não combinarem com eles antes, o fracasso será total. São monopólios que ficam na arquibancada vendo agentes públicos queimando dinheiro para atraírem uma simples escala de um belo transatlântico nem que seja para saírem na foto.

Mas afinal, quem se importa com o gasto supérfluo do dinheiro público? Eu me importei e vocês sabem o que aconteceu comigo.

Vamos primeiro fazer o melhor turismo com o que temos para brasileiros da região pra depois dar o próximo passo. Se a cidade não recolhe seu lixo ou não consegue tirar o mau cheiro, tratar seus esgotos, ou acabar com os buracos das ruas, como pensar em turismo internacional?

Até a próxima!

21 de jul de 2011

Portos de cargas e navios de turismo: Como conciliar? (Parte 1)

Esse blog em conjunto com o site do Correio do Litoral tem divulgado os encontros sobre grupos técnicos de turismo, terminal para navios de passageiros em Paranaguá e outras informações do que se discute atualmente sobre o assunto no litoral do Paraná.

Mas o assunto não é novo! Vejamos a notícia sobre o último navio que trouxe à Paranaguá no site da Appa:
http://www.appa.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=526&tit=Navio-com-mais-de-13-mil-passageiros-atraca-no-Porto-de-Paranagua

O Correio do Litoral.com também cobriu o assunto com diversas matérias, como estas: Veendam mobiliza turismo do litoral do Paraná e Litoral terá teste de receptivo de cruzeiros


Ainda na minha gestão à frente da Appa (Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina), atracava um dos últimos navios de passageiros no porto de Paranaguá, em 22/03/2010: O navio Veedam que fazia um cruzeiro de volta ao mundo com passageiros na sua maioria alemães e holandeses. Procedente de Punta Del Este (Uruguai) o navio seguiu depois para outros destinos na costa brasileira após a escala Paranaguá.

Depois disso, se não me engano, mais nada...

Mas afinal o que acontece com essa eterna conversa sobre navios de passageiros? Má vontade do porto? De sua administração? Qual a verdade em torno desse assunto?

Então vamos lá:

* Empresários dos terminais de cargas nos portos não gostam de navios de passageiros, pois tomam a vez nos preciosos berços de atracação, furam a fila e não agregam nada a eles.

* Os trabalhadores portuários, idem. Afinal, navios de passageiros não usam mãos de obra portuária dos sindicatos como um navio cargueiro usa. É próximo a zero a geração de trabalho no cais do porto.

* O porto não tem em seus quadros pessoal qualificado para este tipo de receptivo, nem guias de turismo bilíngue e por aí vai...

* O mau cheiro, o calor escaldante do verão e um guindaste ao lado descarregando fertilizantes e jogando poeira na cara de velhinhos europeus não é nada civilizado ou um cartão de visita para quem acha que isso é “incentivar o turismo”.

* Os portos do Paraná foram há décadas configurados para carga e não para passageiros, o conceito é outro e as instalações e pessoal qualificado é totalmente distinto.

Resumindo: Nossos portos não gostam de turistas e os tratam mal, não somos do ramo ainda... Tampouco nossas cidades estão preparadas para recebê-los.



Mas tem solução tudo isso? Sim, a longo prazo!

Temos que investir em gente especializada, poliglotas (inglês e espanhol fluentes seria um bom começo), terminal próprio, estrutura de receptivo como terminal, aduana e imigração, ônibus de operadores de turismo, cidades bem sinalizadas em e bons restaurantes e lojas para atendimento ao turista. Temos isso? Não!

Em 2009 recebi do prefeito de Paranaguá um estudo em maquete digital de um terminal para passageiros, ficaria situado aproximadamente nos fundos do atual terminal de contêineres, em frente à ilha da Cotinga. Teria um acesso rodoviário direto do centro de Paranaguá por uma ponte elevada que passaria sobre famoso rio do Chumbo, que deve antes ser tratado, devido ao mau cheiro e ocupações irregulares.
Ilustração digital do estudo municipal para um terminal marítimo de passageiros em Paranaguá (2009)

Encaminhei à Secretaria de Portos, ao então ministro Pedro Brito, para inclusão no PAC-2, mas como o ministro saiu e assumiu uma diretoria na Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), e o novo passou por aqui dizendo que “... não sabe de nenhum projeto que a Appa enviou...”, já deu pra perceber o nível de conhecimento de um político vindo do sertão do Ceará.

Exigirá uma dragagem imensa e cara para permitir que estes meganavios entrem no estreito canal e façam sua evolução, o que já é por si só um grande desafio. Isto sem falar do licenciamento ambiental, um acordo com a Funai devido aos índios que moram na Cotinga etc.

Quem paga a conta? A Appa é que não será. Isto  não passaria no Conselho de Autoridade Portuária (CAP) que é composto apenas por empresários do segmento de cargas e não permitirão “desvio dinheiro da infraestrutura” para um empreendimento sem retorno econômico. Nem a Antaq permitirá.

Então a grana deverá vir da “viúva”, mais conhecida como Tesouro Federal, e aí se explica reuniões pra lá, comissões e subcomissões pra cá, reunião de bancadas federais em “busca de recursos federais"... e esse blá blá blá todo. E mais uma vez mata-se a bola no peito e joga pro “futuro”.

Mas, como o assunto é interessante, falaremos na próxima semana de segmentos que têm interesse no terminal de passageiros, sua viabilização e como funciona a decisão dos grandes operadores de turismo para decidirem “onde” escalar os seus transatlânticos.

Até mais!

13 de jul de 2011

Portos velhos e novos: frustrações e oportunidades

Afinal, o velho e decantado “turismo” é um jargão político velho e gasto que é até chato ficar escutando os “especialistas” discursarem em palestras.

Vamos falar a verdade: o turismo no litoral do Paraná e norte de Santa Catarina não se sustenta fora do verão. A temporada de veraneio é curta, intensa, oportunista e deixa muito pouco para uma população residente crescente tanto em Guaratuba, como Pontal do Paraná, Morretes, Antonina, Paranaguá e Itapoá.

Daí a importância dos portos da região e seu desenvolvimento sustentado e organizado para dar permanência e continuidade à renda da região.

Porto de Itapoá

Vamos falar de Itapoá, que tem cara de mais paranaense do que catarinense: lá o porto iniciou suas primeiras operações e tenderão a crescer, se transformando no hubport (porto de conexão) da Hambug Süd, Aliança e outras empresas de navegação.

O “gargalo” ainda é o acesso rodoviário em construção, tentando superar travas ambientais, mas as informações são otimistas, o que abrirá oportunidades para guaratubanos e garuvenses.

A previsão é de que “roube” 20% da movimentação de contêineres de Paranaguá e Itajaí, isto daria uns 250.000 TEU (unidade de medição equivalente a 1 contêiner de 20 pés), o que é por si só algo elevado e importante.

Resolvendo a questão da nova estrada direta ao porto, deslanchará!

Portos em Pontal do Sul

Já escrevi (http://www.correiodolitoral.com/) matéria sobre as licenças ambientais portuárias, que impactam os projetos futuros para a região do Pontal: empresas como Sub Sea7, Techint e Porto Pontal estão com “a mão na taça”, mas ainda não podem levantá-la por ainda não terem as respectivas licenças.

Mas isto será superado nos próximos meses e as obras começarão e abrirão um ciclo virtuoso de trabalho e geração de renda para aquela região, que beneficiará “o pessoal da praia antes do ferry-boat”, ou seja: gente de Matinhos, Caiobá, Praia de Leste e Paranaguá sem dúvida terão oportunidades de trabalho, sem falar do comércio regional que dará um salto e será continuado em um ritmo superior.

Porto de Paranaguá: cargas x turismo

No tema de cargas, nosso maior porto já tem licença prévia do Ibama para que se construa mais 315 metros de cais para contêineres, a ser realizado e pago pelo TCP (Terminal de Contêineres de Paranaguá S/A), dirigido pelo competente amigo Juarez Moraes e Silva.

Como a manobra de um navio é lenta, o mesmo ocorre com as mudanças em portos, mas depois que a manobra começa é difícil parar!

O problema de Paranaguá é a retro-área, já em esgotamento por falta de áreas com liberação ambiental e as vias de acesso em péssimo estado.

Deixei na Secretaria de Portos no início de 2010 o projeto do município para incluir nas obras do PAC-2 uma grande obra, que é a duplicação da principal via de acesso ao porto com ruas urbanas marginais, trincheiras e ciclovias. Não sei se meus sucessores estão dando continuidade, mas é vital para o porto.

Na questão do turismo, deixei também protocolado na Secretaria de Portos em Brasília, o projeto do Terminal de Navios de Passageiros, desenvolvido pelo município com a participação da Capitania dos Portos na época do comandante Rios. Com recursos do PAC-2 e agora com o “clima da Copa do Mundo 2014” pode ser que a coisa ande, embora a questão ambiental novamente possa ser uma trava.

Este terminal turístico, longe das cargas pesadas e da poeira do porto, pode mudar a cara da cidade e trazer em definitivo um equipamento turístico para Paranaguá de grande impacto.

Porto de Antonina: a realidade e o patrimônio paisagístico

A notícia que o Iphan ( Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) “tombou Antonina” tem dois lados: o ótimo e o duvidoso!

O ótimo é a conservação daquele casario colonial maravilhoso, que pode colocar Antonina no caminho de se tornar uma Paraty se bem administrada para explorar esse nicho turístico.

O duvidoso: tombou-se inclusive a paisagem do entorno da cidade, o que me preocupa. Já sei de um empreendimento naval que já foi “pras cucuias”. Ou seja, um empresário que comprou áreas de frente à baía de Antonina e outro grupo que sondou a aquisição do velho porto Matarazzo para transformá-lo em estaleiro. Esta atividade é de uso intensivo de mão de obra, propiciaria muito emprego.

Como o Iphan vai concordar com esses empreendimentos no contexto genérico “paisagístico”?

Qualquer um poderá criar obstáculos a dizer: “Não! Essa obra não pode porque vai alterar aquela bela paisagem!”. Pronto, está feita a encrenca e o investimento e os empregos não virão.

Mas o Terminal da Ponta do Félix vai muito bem, com uma média de 15 navios por mês e houve até concurso para mais estivadores para o porto. Apanhei muito e fui acusado de muitas bobagens, mas hoje novo porto de Antonina vai de “vento em popa!”