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17 de mar. de 2012

"O Japão? ... Não é aqui!"

Publicado simultâneamente no jornal eletrônico Correio do Litoral


Imagine que Deus, do alto de sua piedade chama um dos seus anjos-assessores e dá uma ordem: “Na Terra tem um lugar chamado Japão, que foi atingido por terremoto terrível, ondas gigantes, catástrofe nuclear e 20 mil vidas foram perdidas. Já faz um ano, mas eles ainda devem precisar de ajuda. Vá lá coopere para que tudo se reconstrua.”

Tragédia na cidade pesqueira do Japão: E se fosse no Brasil?

O anjo-assessor, emocionado com a missão divina, sequer perguntou as coordenadas geográficas desse lugar chamado Japão. Saiu respeitosamente da presença de Deus e foi cumprir sua missão.

Já travestido de humano, começou a percorrer a Terra a procura de pontes caídas, estradas e casas devastadas que pareceria com o lugar indicado pelo Mestre.

Aterrissou primeiramente na região serrana do Rio de Janeiro, devastada há mais de um ano por chuvas torrenciais, enchentes, deslizamentos de terra, mortes e com tudo ainda por reconstruir.

O nosso assessor angelical, com os poderes linguísticos que Deus lhe deu, perguntou a um brasileiro “deitado eternamente desabrigado” da periferia de Petrópolis: “Aqui é o Japão?”.

O brasileirinho assustado respondeu sentado no seu banquinho à sombra de parte que sobrou da casa: “Não é não senhor! Até eu queria que fosse. Estamos há mais de ano querendo reconstruir nossas casas, estradas e... nada! O Japão é muito mais longe daqui!”.

Surpreso com o cenário de destruição que via, não entendia por que Deus não tinha comentado sobre aquele lugar no Brasil.

Viajou mais para o sul chegando a um lugar chamado “Litoral do Paraná”. Lá encontrou gente reclamando de chuvas, destruição, estradas e pontes caídas, casas perdidas em deslizamentos de terra etc. etc. Parecia que tinha chegado, enfim, ao lugar certo: “Aqui é o Japão?” pergunta o viajante celestial.

“Não!”, repetiam as pessoas de Morretes, Antonina, Floresta e bairros vizinhos.

Nosso incrédulo anjo-assessor vendo por estes lugares tanta destruição, pontes improvisadas com pedaços de árvores caídas pela destruição há mais de um ano, ficava pensando: “Onde será que fica esse Japão?”.

Até que uma alma caridosa lhe indicou o caminho certo para chegar ao lugar que Deus lhe ordenara. Ficava no outro lado do planeta, era uma ilha vulcânica conhecida por todo mundo naquelas bandas.

E lá se foi nosso anjo.

Aterrissa finalmente no Japão e em Tóquio pergunta onde há um ano teve terremotos destrutivos, tsunami, estradas e pontes destruídas onde muitas vidas se perderam.

Todo mundo sabia onde eram os lugares e guiaram nosso viajante divino.

De automóvel, no caminho só via belas e bem conservadas rodovias, pontes, casas em construção, máquinas trabalhando... A vida corria normalmente.

 Fotos do Tsunami no Japão Antes e DepoisFotos do Tsunami no Japão Antes e Depois 
A japonesa desabrigada pelo tsunami em mar/11 e hoje no mesmo lugar com seu filho. E no Brasil?

Perguntou às pessoas: “Tem certeza que aqui é Japão?!”.

As pessoas incrédulas com aquelas perguntas “tolas” respondiam “sim aqui é o Japão!”.

Mas, nosso anjo se perguntava meio atônito: “Estive no Brasil e só vi destruição e pessoas desesperadas e esperando há um ano pela reconstrução de suas casas e vidas. Será que Deus me mandou ao lugar certo? Aqui está quase tudo reconstruído!”.

Desolado, o anjo-missionário volta aos céus e se queixa pra Deus, dizendo que o Japão foi destruído em escala imensamente maior na mesma época que algumas regiões do Brasil, está quase reconstruído. As estradas são ótimas, as pontes novas e sinalizadas, o desastre nuclear controlado, as máquinas e a reconstrução a todo o vapor. Enquanto isso no Brasil...

Deus pensativo ficava se indagando: “Em que fase da criação eu errei?”.

Dedico esta coluna às famílias que perderam nestas catástrofes seus bens, sonhos, pessoas amadas, projetos de vida e ainda estão à mercê da sorte.

Enchentes e deslizamentos em Morretes e Antonina. Morretes, 12-02-2011.Foto: Orlando Kissner/AENotícias
 Destruição em Morretes-PR em Março 2011

Pessoas como a cantineira Dila na área do porto de Paranaguá que hoje abriga em sua casa seus pais idosos, como milhares de brasileiros, tiveram seu sítio destruído no bairro Floresta em Morretes e até hoje não têm ajuda oficial.

Enquanto lemos aqui no Correio do Litoral as notícias sobre discussões políticas sobre “liberação de verbas”, o tempo consome a dignidade e a vida das pessoas.

Realmente, aqui não é o Japão.

É a minha opinião!